sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Aguardando o julgamento



No início era somente poeira cósmica, não tinha nada, então o mestre resolveu criar, e com sua imaginação criou o céu a terra, os planetas e estrelas, com sol e lua, tudo perfeito.
Eu vi e participei de tudo isso, era muito importante na hierarquia do céu, até que ele criou os seres humanos e os amou tanto que fez sua imagem e perfeição, mesmo eles errando, não dando valor a própria vida, é um amor incondicional, e eu lhe pergunte o porquê de tanto amor nos homens, e com uma voz que transmitia um amor e ao mesmo tempo uma sentença, ele disse:
-Você também vai amá-los
Então com uma simples pergunta que havia feito, a sorte estava lançada, mais tarde vim para a terra para cumprir uma missão, e ao término fui até um riacho onde havia cachoeira para contemplar e foi ai que tudo começou, senti um cansaço e fraqueza, não vi mais nada simplesmente apaguei, e ao acordar senti que algo havia mudado, pois sentia frio, tentei me transladar não conseguia, procurei minhas asas e não encontrei então me lembrei da resposta do mestre, que eu também iria amá-los, e entendi o que estava acontecendo, nada mais era que uma lição de amor e a resposta a minha pergunta.
Totalmente desnudo comecei a caminhar, meus pés doíam quando pisava em pedras e espinhos, meu corpo cansava facilmente, era só o começo de uma vida que iria se desenrolar, e não demorou a que os maus espíritos descobrissem e começassem a atormentar minha mente e alma, só parando quando eu clamava a Deus, então avistei no campo uma luz acesa e chegando perto vi que era uma casa modesta e pelo vidro da janela avistei uma senhora de idade e me lembrei que já a conhecia, pois já tinha ouvido suas preces, então bati na porta e pedi sua ajuda, no inicio ela se assustou, mas como tinha um bom coração me ajudou, curando minhas feridas nos pés e me dando roupas, calçados e alimento, pois agora sentia tudo, dor, sabor, cansaço, e sentimentos.
Ao dormir sonhava com as batalhas travadas entre anjos e demônios que já havia participado, mas não podia dizer a ninguém, pois não acreditariam e me taxariam de louco, alem de me internarem em um hospício. Pois estava só em meus pensamentos e lembranças, mas tinha a presença de Deus como todos a tem, então não estaria tão só tinha a quem recorrer nas minhas dificuldades e sabia que ele atenderia, pois eu estive ao seu lado.
Não tinha eu noção de como eu era e o que iria fazer, pois nunca fui humano, não tinha corpo não sentia dor, e o desespero recaiu sobre mim, foi então que a senhora que me acolheu se aproximou de mim e vendo meu desespero me disse:
-Meu filho!
-Você é um filho de Deus, portanto tem que agir como tal; Irá trabalhar para viver, andar em retidão, orar para se salvar e a casa do pai retornar, olhe- se no espelho!
Foi então que olhei em um espelho de moldura antiga, grande, e para minha surpresa me vi pela primeira vez “Alto quase dois metros de altura, forte, loiro, com olhos verdes”, e então tive a certeza que Deus me amava também, não poderia decepcioná-lo e viver com toda intensidade possível.
Após agradecer a senhora, iniciei a minha jornada por este mundo e minha guerra particular contra as hostes do mal, que não são poucas; E pegando carona fui para cidade de São Paulo para arrumar um emprego e me sustentar, parecia tudo fácil, mas não era bem assim, chegando à cidade fui roubado por três homens armados que levaram as roupas que a senhora havia me dado, me deixando somente com a roupa do corpo e sem dinheiro, sem poder arrumar um lugar para dormir, foi então que um menino franzino, mau vestido se achegou a mim e perguntou se eu estava precisando de ajuda, e eu sem outra opção o acompanhei até seu lar, uma casinha humilde na favela, de chão batido, paredes e teto de lata, onde sua mãe, mulher de uns trinta anos, morena, cabelos longos, um metro e setenta de altura, aparência judiada pelo tempo e esforço, trabalhava nas ruas catando latinhas para sustentar ela e o menino, porem com um coração grande e cheio de amor. Foi ai que meu coração doeu e pude entender vendo aquela família, que mesmo na dificuldade me acolheu, lutando pela subsistência, no pouco repartiu o que tinha, sem me conhecer ou saber nada sobre mim, que apesar de trabalhar o dia todo, chegava a casa, tomava seu banho e ia a igreja agradecer a Deus, pela saúde, pela vida, pelo pouco dinheiro que havia preparado para eles, e no retorno prontos para dormirem em uma cama improvisada de resto de madeira, dobraram seus joelhos e oraram pedindo a Deus a meu favor, foi então que os amei e compreendi o amor de Deus para com eles. E se cumpriu a sentença das palavras do mestre em minha vida.
Desde então comecei a ajudar aquela família, arrumei um emprego de lixeiro, depois consegui um emprego em obras de construção de asfalto e assim por diante, dando todo salário para aquela mulher que administrava como nunca havia visto, tudo que ia fazer orava antes, e assim Deus foi prosperando, e em pouco tempo estávamos morando em uma casa de tijolos, depois de certo tempo deixei o emprego e conseguimos montar uma reciclagem, onde Deus abençoou de ajudar outras pessoas e assim estou vivendo, mal sabia eu que aquela mulher era a que Deus havia preparado para ser minha companheira e ajudar, nas horas difíceis e de fraqueza enquanto vivesse nesta terra.
Foi assim que Deus me deu o entendimento e mostrou o motivo de seu amor pela humanidade, pois neste mundo muitas pessoas praticam o bem e o amor. Ele sempre esta certo, “Eu os amo”, assim como todos devem amar o seu próximo.
Estou caminhando em justiça e verdade nesta vida, sujeito as tentações, dores, perdas e injustiças, mas com a certeza que Deus nunca abandona os seus, e continuo aguardando o julgamento como todos vós.

Um conto de:
Waldir Galis

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